Nunca penso neles
Foram-se, tenho ficado comigo
Não assombram os meus sonhos
Na verdade nunca sonho
Senão esqueço os meus sonhos
Como esqueço as caras as quais
Sorriam à minha sombra
Isto tudo não me impede de dormir
Embora tente estar com frio
Para ficar acordado enquanto ouço
As batidas do coração
Esse do mundo
Isto também não me impede de comer
Mas deixo sempre o pão endurecer
Antes que esteja com fome
Conservo um pouco para as pessoas
Que têm aceitado enfrentar na eternidade
Deve de ser terrível de estar com fome
Quando já não pode-se morrer
Se fosse alimentado intravenosamente
Já não sentiria o gosto dessa vida
Infelizmente a vida obceca-me
Quando rio ou quando choro
La natureza nunca me deixa em paz
Exige que a vida sobreviva a mim
Porém não sou um amante galante
Também quer que fique acordado
Para que a vida sonhe comigo
E lembre-se de mim
É que o meu corpo é demais pequeno
Pela eternidade
Não poderia sobreviver àquela
De qualquer modo
A eternidade é inútil
Quando não se tem
Nem história nem filhos
Lembro-me que era um filho
Um menino
Tinha sonhos, tenho-os ainda
Tinha dores, como todos
Lembro-me duma dor de dente
Tive medo de acordar a minha mãe
Hoje os meus sorrisos mentem a Deus
Se chorasse até que cantasse um fado
Ninguém me ouviria
Temos olhos para ver
Temos orelhas para ouvir
A pele para sofrer
Mas por que parte do corpo
Se pode entrar nos sonhos e corações
Da gente e duma borboleta?
Quem ouve os medos duma mariposa
A qual está a afogar num lavabo
Porque manda-se que uma criança
Lave os dentes e cuspa depois do jantar?
Para a mariposa a morte parecia tão real
E tão triste, e a eternidade só uma piada
Se nada é real
Nem um bater de asas
Nem uma batida do coração
Então sei que as minhas memórias
Jamais vão morrer
Nunca tendo existido
Se a verdade primeira desse mundo
Pôde nascer num antigo testamento
Então o sonho das minhas memórias
É enterrado vivo em pobres poemas